Tales de Mileto viveu no século VI a.C., na cidade grega de Mileto, situada na costa ocidental da atual Turquia. Ele costuma aparecer nos livros como um dos primeiros filósofos e como uma figura importante na história da ciência. Isso não significa que tenha inventado a ciência no sentido moderno — com laboratórios, experimentos controlados, revistas especializadas e cálculos precisos. Sua importância está em uma mudança de atitude: procurar explicações para a natureza dentro da própria natureza.

Essa mudança parece simples hoje, mas foi decisiva. Quando alguém pergunta do que o mundo é feito, por que a Terra se sustenta ou como prever um eclipse, está procurando regularidades e causas. Tales fez esse tipo de pergunta numa época em que narrativas religiosas e míticas também eram formas importantes de explicar a origem e a ordem do cosmos.

O que sabemos — e o que não sabemos — sobre Tales

É preciso começar com uma cautela. Não chegou até nós nenhum texto cuja autoria de Tales seja segura. Grande parte do que lhe atribuímos foi escrita por autores posteriores, como Heródoto, Platão e Aristóteles, décadas ou séculos depois de sua vida. Portanto, há uma diferença essencial entre dizer “Tales afirmou isto” e dizer “autores antigos atribuíram esta ideia a Tales”.

Aristóteles, por exemplo, escreveu que Tales teria considerado a água o princípio de todas as coisas. Em grego, a busca por esse princípio recebeu depois o nome de arché: a origem ou fundamento básico de tudo. Para Tales, segundo esse relato, a enorme variedade do mundo teria uma base comum.

A proposta não estava correta segundo a ciência atual. Matéria não é feita apenas de água, e a química mostrou que a água é uma substância formada por hidrogênio e oxigênio. Ainda assim, a pergunta de Tales era poderosa: será que fenômenos muito diferentes podem ser compreendidos a partir de elementos, processos e regras comuns? Essa é uma pergunta profundamente científica.

A água como princípio do mundo

A escolha da água provavelmente não foi aleatória. Água é indispensável aos seres vivos, aparece em rios, mares, chuvas e fontes, muda de estado entre líquido, vapor e gelo e está ligada à fertilidade do solo. Aristóteles sugeriu que Tales poderia ter observado a umidade presente nos alimentos e nas sementes, bem como o papel da água na vida.

Mas seria um erro imaginar Tales como um químico antes da química. Sua ideia era uma tentativa ampla de explicar a constituição e a transformação do cosmos, não uma teoria testada como as de hoje. Ela misturava observação, raciocínio e pressupostos filosóficos que não podemos reconstruir por completo.

Também se atribui a Tales a ideia de que a Terra flutuava sobre a água, como algo apoiado num meio líquido. Essa explicação está errada: a Terra é um planeta rochoso que orbita o Sol, mantido nessa trajetória pela gravidade. Mesmo assim, ela substituía uma imagem de sustentação divina por uma proposta física, ainda que inadequada. O que sustentaria a Terra? Algo da natureza, não necessariamente a vontade momentânea de uma divindade.

A ruptura com os mitos foi real, mas não absoluta

Às vezes, Tales é apresentado como o homem que expulsou os deuses das explicações do Universo. Essa imagem é exagerada. No mundo grego, religião, política, poesia e investigação da natureza conviviam; a passagem de explicações míticas para explicações racionais não ocorreu de um dia para o outro.

Além disso, uma frase atribuída a Tales — a de que “tudo está cheio de deuses” — mostra como seria inadequado imaginá-lo como um pensador moderno e secular. O ponto central não é que ele tenha abandonado toda dimensão religiosa. É que, nas explicações que lhe são atribuídas sobre a matéria, a Terra e os astros, ele procurou padrões naturais que pudessem ser discutidos e comparados.

Essa abertura à crítica é fundamental. Uma narrativa pode ser aceita por tradição; uma explicação sobre a natureza pode ser questionada: a água realmente explica tudo? A Terra pode mesmo flutuar? Que observações sustentam essa ideia? Outros pensadores da região de Mileto, como Anaximandro e Anaxímenes, propuseram respostas diferentes. A discordância passou a mover a investigação.

O eclipse: espanto no campo de batalha

A história mais famosa ligada a Tales envolve um eclipse solar. O historiador Heródoto relata que, durante uma guerra entre lídios e medos, o dia teria se transformado em noite. Os combatentes, assustados com o fenômeno, interromperam a luta e buscaram a paz. Heródoto afirma que Tales havia previsto a perda de luz para os jônios, dentro do ano em que ela ocorreu.

O eclipse tradicionalmente associado ao episódio aconteceu em 28 de maio de 585 a.C. Os cálculos astronômicos modernos confirmam que houve um eclipse solar naquela data, visível em parte da Ásia Menor. Mas há uma incerteza importante: não sabemos como, ou mesmo se, Tales foi capaz de fazer uma previsão nos termos exatos que a tradição lhe atribuiu.

Prever um eclipse com local e horário precisos exige dados e técnicas muito mais elaborados do que os disponíveis na Grécia daquele período. É possível que conhecimentos astronômicos da Mesopotâmia, onde ciclos de eclipses eram observados havia séculos, tenham circulado pela região. Também é possível que a história tenha sido embelezada ao longo do tempo.

Ainda assim, o episódio ajuda a entender por que Tales se tornou símbolo de uma nova forma de pensar. Um eclipse pode causar medo porque parece romper a ordem do céu. A possibilidade de antecipá-lo sugere o contrário: o céu possui regularidades. Não é preciso tratá-lo como um milagre repetidamente inexplicável; pode-se observá-lo, registrar ciclos e tentar prever seus acontecimentos.

As pessoas ficaram horrorizadas com suas ideias?

Não há evidência histórica confiável de que os habitantes de Mileto tenham ficado horrorizados especificamente com a tese de que tudo vinha da água. Essa imagem seria atraente para uma narrativa dramática, mas não é sustentada pelas fontes antigas disponíveis.

O que os relatos mostram é outra coisa. O eclipse teria provocado terror entre soldados, por transformar repentinamente o dia em escuridão. Já Tales, como personagem público, também foi alvo de zombaria. Platão conta uma anedota segundo a qual ele observava o céu e caiu num poço; uma criada trácia riu porque ele queria conhecer o que estava no alto, mas não via o que estava diante de seus pés.

A cena provavelmente não é uma biografia literal. É uma história filosófica sobre o contraste entre a contemplação do cosmos e os problemas cotidianos. Aristóteles preserva outra anedota: Tales teria sido ridicularizado por sua pobreza e, usando observações astronômicas, alugou antecipadamente prensas de azeite antes de uma grande colheita, demonstrando que poderia enriquecer se quisesse. Nos dois casos, a reação relatada não é horror: é espanto, ironia e desconfiança diante de alguém que valorizava conhecimentos aparentemente pouco práticos.

Matemática, medida e tradição

Tales também recebeu fama de geômetra. Autores posteriores lhe atribuíram resultados sobre triângulos, ângulos e círculos, além da medição da altura de pirâmides pela comparação entre sombras. Essas histórias combinam bem com uma prática científica: transformar um problema difícil de alcançar — a altura de uma construção — em uma relação mensurável no chão.

Mas as atribuições devem ser tratadas com cuidado. Não há como demonstrar que Tales formulou os teoremas associados a seu nome da maneira como aparecem nos manuais atuais. O mais seguro é reconhecer que a tradição antiga o vinculou ao uso da geometria para resolver problemas concretos. Isso já revela algo importante: observar não basta; medir e comparar relações também ampliam o conhecimento.

Por que Tales ainda importa

A maior ligação entre Tales e a ciência não é uma descoberta isolada que permaneceu correta por 2.600 anos. Suas respostas sobre água, Terra e cosmos foram superadas. O legado está no gesto intelectual de formular perguntas gerais sobre a natureza e aceitar que suas respostas precisavam competir com outras respostas.

A ciência moderna acrescentou instrumentos, matemática avançada, testes repetíveis e métodos coletivos de revisão. Mas ela preserva uma ambição que Tales ajudou a tornar visível na tradição grega: procurar explicações que não dependam apenas da autoridade, do costume ou do espanto. Diante de um mundo estranho, a pergunta deixa de ser somente “qual história conta isso?” e passa a ser “que processo natural pode explicar isso?”.

Fontes e leitura adicional